Texto de em 27 de setembro de 2017 . Nenhum comentário.

mr Kawamura

Eu até entendo aquelas pessoas que leem diversos temas ao mesmo tempo e passam a limpo três, quatro livros em um mês. A esses leitores deixo aqui, antecipadamente, os meus aplausos. Imagino como essa habilidade deve ser útil e os deve deixar à frente de qualquer um. Eu não nasci com, nem desenvolvi tal sorte.

É claro que são fases também, dependendo da necessidade e da presença de espírito, dá até pra encarar umas leituras, digamos assim, mais dinâmicas. Enfim, o caso é que pelo terceiro ano consecutivo, na mesma época, nesses dias de fim de agosto e início de setembro, me vi encarcerado em um capítulo de livro. Pela terceira vez, só consegui atravessar o capítulo em questão após longas horas de leitura e releitura compulsiva. Obsessão? É possível que sim.

Deixando o drama de lado, talvez isso seja algo menos patológico e mais intuitivo. Apenas curiosidade. Uma busca mais intensa que perfura a epiderme da interpretação de texto e ganha volume na absorção do sentido. É quando você literalmente começa a entrar em um processo de enxergar palavras sem a necessidade de letras. Um animal desconhecedor dos signos, que apenas se orienta por sensações e sonhos. Como diz o trecho do poema de Miss Saeki:

You sit at the edge of the World
I am in a crater that’s no more
Words without letters

Esse poema se encontra justamente no trecho do capítulo ao qual permaneci preso por quase todo esse mês. É a vigésima terceira parte do romance ‘Kafka à Beira-mar’, do japonês Haruki Murakami. É nesse pedaço do livro, sem dúvida, que acontece o ponto de confrontação do herói. Porém, em um sentido mais poético e contemplativo. Não foi apenas gatilho para entronizar um certo desenrolar de acontecimentos em direção ao desfecho. Foi uma metáfora simples e muito reveladora. Uma chave que mudou a realidade. Fui Tamura, fui Nakata, fui Hoshino e, mais do que todos, fui o felino Kawamura. Grande livro de sonhos que me proporcionou um breve reencontro com aquela excitação das primeira leituras.

No início de setembro de 2016 aconteceu algo parecido. O livro era ‘O Mestre e Margarida’, de Bulgakov. Ucraniano-russo maldito! Bruxo do teatro. Rei das cenas impossíveis. Pai de Behemoth, o gato mais lokaum da literatura mundial. As pinturas desenhadas naquelas páginas até hoje habitam as profundezas dos meus sonhos. Por vezes, no ponto de ônibus ou pedalando minha bicicleta, com o vento batendo no rosto, fecho os olhos e vejo as paisagens e atos fantásticos que o velho Mikhail compôs e deixou registrados naqueles manuscritos que não arderam nas chamas. Coincidência ou não (pira influenciada pela baixa cultura de 2007 com aquele thriller com o Jim Carrey? Talvez), o capítulo deste livro que me aprisionou por mais de um mês foi também o de número vinte e três.

O grande baile do ‘mochila de criança’ – aquele que pesa nas costas dos inocentes – descrito por Bulgakov nesse capítulo me deixou tão obcecado que em uma noite, no fim daquele mês de setembro, me vi diante de uma cena muito parecida, que até hoje não tenho certeza se exatamente aconteceu. Era madrugada. Eu estava em frente a um estabelecimento comercial na Avenida Senador Souza Naves, quando de dentro de um táxi desceu um grupo de figuras extremamente semelhantes ao sombrio Woland e sua galerinha do mal. Não tive medo, mas um pouco daquele estresse me causou consequências permanentes. Sem contar que o encanto e a entrega de Margarida despertaram em mim uma paixão controversa.

Fechando (ou iniciando) o ciclo dos três anos de setembro emparedado, 2015 teve sua cota de obsessão. Acho até que, de todas, essa foi a fase mais onírica. Por esse motivo, acredito também que tenha sido a mais problemática das três compulsões.

O livro era ‘O Aleph’, do Borges. Foi meu primeiro contato com o sobrenatural. Fiquei exatos trinta e cinco dias desesperadamente trancado dentro do primeiro capítulo do exemplar que chegou até mim por intermédio de um empréstimo na Biblioteca Pública do Paraná. Renovei e atrasei pela segunda vez. Paguei multa apenas para mantê-lo mais alguns dias comigo e tentar compreender o que de fato aquele conto ‘O Imortal’ queria me dizer.

Naquele período, vivendo no Hauer e vindo ao Centro todos os dias de bicicleta, tive alucinações. Em uma dessas revelações, conversei com o centurião de Tebas, que tem a busca pela imortalidade desenhada por Jorge Luis de uma maneira (por vezes hermetista) veemente e cheia de significado. Sofri com o desapontamento de Cartaphilus. Porém, mais do que as questões filosóficas a respeito de vida e morte, sobre aventura e pesadelo, memória e admiração, o que Borges diz sobre o sentido e a importância das palavras foi a chave de libertação daquela cela:

“Quando se aproxima o fim”, escreveu Cartaphilus, “já não restam imagens da lembrança, só restam palavras”.

Palavras, palavras deslocadas e mutiladas. Palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos.

Repito essas frases como um mantra todos os dias: só restam palavras, palavras deslocadas, palavras mutiladas. As visões desencadeadas pelo primeiro capítulo de ‘O Aleph’, transformei em contos como o ‘Gálea e Bronze’ e ‘Amedeo’. Dos enigmas de ‘O Mestre e Margarida’ escrevi ‘Factóides da Devastação’ e ‘Festival de Inverno’. Enquanto lia o capítulo vinte e três de ‘Kafka à Beira-mar’, escrevi ‘Trauma’. Fracassadas tentativas de entender os significados dos sonhos suscitados pelos três livros. Na semana passada, baixei em e-Book ‘A Interpretação dos Sonhos’ e ‘O Futuro de uma Ilusão’, pra ver se ajuda. Tenho no máximo algumas pistas esparsas, nada inteiramente decifrado. A vida nos confronta com alguns mistérios insondáveis, contudo, ainda não sinto emergência em desvendá-los. A jornada importa mais que o destino.

Texto – Jadson André

Imagem – Mr. Kawamura