Texto de em 17 de junho de 2016 . 3 Comentários.

Sabrina disse que precisava de um cachorro de colo, se der yorkshire melhor, e de quinze dias na praia, porque no outono é mais vazio e mais barato. Turco, o marido, louco de amor e de vontade de evitar desconforto, aceitou a ideia e disse que daria um jeito. Ligou para um dono de bar do Bairro Alto atrás do contato de Jackson, o Polaco, ladrão de vários B.O. nas costas, que poderia ajudar no problema. Contratou o cara via instruções em áudios de whatsapp, irrastreáveis. Abriram o trabalho como homens adultos e polidos.

Jackson saiu de moto, às quatro, de seu emprego oficial em uma sapataria, com a desculpa de que precisaria ir até o Jardim Weissopolis buscar umas botas pra arrumar na casa de uma tia idosa. Queria sair antes do trânsito apertar. Faria um por fora com o que guardava nos fundos de casa. O que tenho deve dar. Qualquer coisa trago pra cá e a gente divide a grana, mas não quero cobrar nada da minha tia, não. Coitada. O chefe aceitou e disse então até amanhã para o funcionário que lhe dava menos dor de cabeça.

O motoqueiro pesquisou nos mercados do outro lado da cidade que conseguiu lembrar. Improvisou a rota no caminho. Cansou as pernas no Angeloni da Carlos de Carvalho e no Big da Rápida do Portão, mas fechou questão no estacionamento externo do Festval da 29 de março. Pegou um dogue pela janela entreaberta de um Peugeot de branco mais conservado que o das paredes da casa de Bruno, no Abranches, onde combinou de ir depois do golpe.

No sinaleiro da Brigadeiro Franco com a Manoel Ribas reparou num Corsa preto filmado que emparelhou em sua direita, na pista do meio. O motoqueiro rezou para o Yorkshire não latir de dentro da caixa de pizza, mas sorriu com o choro leve e abafado do bichinho. O edredon, transformado em tapete para sequestro, não tinha embolado na subida. O pequetico vivia. Jackson relaxou os dedos nas manoplas e olhou para cima. Sozinho no capacete, agradeceu a Deus e pegou esquerda quando o sinal abriu. Costurou até a Rosa Saporski. Olhou para o Hospital Nossa Senhora das Graças, onde nasceu, sem emoção. Respirou forte e rápido para se livrar do muco. Levantou a viseira e cuspiu. Contornou uma ambulância que ajeitava posição na rua e prosseguiu caminho.

Viu sobrados – samba e churrasco num bar de esquina – a antena da RPC – Mamoré –  esquerda – Posto – direita:  Alta Jacarezinho – Guido –  lombada; rotatória-guerra; esquerda – futebol de areia – reto – Antena – feira de rua – pizzaria – esquerda – Academia Gustavo Borges – direita – posto – reto – restaurantes – Rede Massa decorada – açougue com televisão de cachorro – descida – outdoors – esquerda – Band – fim da Hugo Simas – Cruz do Pilarzinho – Posto – pizzaria – Universal – farmácias – direita – Fredolin Wolf – antena – Bombeiros – posto – antena – o muro gramado da CNT – meninos e meninas jogando futebol de areia – pneus cheios e lombadas – leves esquerdas e direitas – espetinho de rua – um campão de futebol – uma unidade de saúde – hot dog da Novinha – uma santa exposta em outra parede gramada, na quina de uma casa – subiu uma quadra de morrinho – desceu uma quadra de morrinho; rotatória-paz; esquerda.

Abasteceu no posto BR da Igreja e seguiu caminho por vias simples da zona norte de Curitiba.

Chegou. Montanhas de Tamandaré de um lado, Barreirinha do outro. Esconderijo ao centro. O trabalho renderia novecentos reais, parte de Bruno pelo cativeiro. O anfitrião recebeu o motoca no gramadão que separava sua casa do portão, com uma limonada de limão de quintal na mão esquerda e o controle da televisão na outra.

– É o tal do Yorkshire?

– Aham. Foi na 29, comentou Jackson, liberando o cachorro de sua cela.

Os camaradas sentaram no chão, de frente para a casa grande e silenciosa. Bruno soltou o copo esvaziado na grama e reclamou acabou o quibe cru. Jackson soltou o bicho no chão, e ficou olhando seu andar trêmulo pelo terreno. Pernas bambas de susto e desinformação.

– A caixa da tua moto tá fedendo a mijo. Fala com esse Turco logo que hoje vou ver Tela Quente. Tá sem bateria?

– Telefoninho velho. Cadê carregador? Que filme que é

– Liga do meu ; aqui. Senha SWORDFISH com dáblio, tudo junto. Num lembro o filme, mas tem o Jackie Chan e o outro Jack, Jat, Jet, sei lá, que luta também

– Olhando agora até gostei desse coisa 

– Massa. Mas, né?, – acendeu um Hollywood vermelho e tossiu apontando com a mão – seiscentos e cinquenta, duzentos e cinquenta

– A Jennifer ia gostar também

Jackson queria acabar logo com aquilo e tomar qualquer vodka, desde que não Raizov, ou qualquer conhaque, desde que não Presidente. Faltavam quatro dias para o prazo do pagamento da luz e uma semana para precisar de um novo botijão de gás. Ligou para seu contratante.

– Faz assim. Quebrou o iPhone da Muié e tô do lado do Mueller esperando esse negócio, mas já que busco, belezinha?

– Antes das dez?

– Te ligo, tá bom. Yorkshire?

– Yorkshire, meu. Meio cor de terra. Sei lá cor …

– Olôco

– … parece meu travesseiro.

– Ah, parece? Tá dormindo aí? Escuta, papo sério, pra render bem mais: e gente? Já fez esse tipo de coisa com gente também?

– Depende. Quem quer saber e de que gente cê tá falando?

– É eu que quero saber. A gente é minha mulher, mas fala baixo, louco.

 

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Ilustração Nina Zambiassi

Texto Marco Antonio Santos

 

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