Literatura apesar de tudo.

Babaca

Texto de em 17 de julho de 2009. Nenhum comentário.

postado por Rafaé.

Sentado ali, no meio fio, não tinha noção de quanto tempo se passara. A visão era embaralhada, fora de foco, e a musa (ou não) ainda lá, parada. Imaginou-se indo até ela, tentando um primeiro contato: “e aí, vai pegar qual ônibus?”. Não. Não era uma boa idéia. Com certeza não conseguiria caminhar sobre a reta que os unia. Em meio a essa indecisão, foi dominado por uma tremenda ânsia. Parou, respirou, e foi. Logo foi vencido pelo desejo incontido de seu corpo: o de permanecer na horizontal. Caiu a menos de dois metros do amor eterno. Vomitou, praguejou e dormiu ali, sem a musa, sem conforto e com uma certeza: tubão é foda!

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Ela disse que o nome dela era Billie Jean e eu, sem nenhuma razão em especial e não em função disso, não fui com a cara dela.
Talvez evocar o nome da personagem-título da canção do Michael Jackson possa ter parecido para ela uma ótima idéia, mas o efeito que aquela apresentação me causou só não foi nulo, porque foi mais que isso. Foi desagradável, a bem da verdade. Uma péssima forma de dizer oi. Eu estava chato, sonolento, desatento e estressado, segundo os que lá estavam, mas não foi por isso que não fui com a cara da menina, penso. Ah, e agora a maldita, a incerteza resolveu me acometer. Não. Não digo que “penso que não foi por isso que não simpatizei com ela”. Absolutamente não foi. Deve haver algum fator maior, mais determinante para tal. Alguma coisa no tom de voz, no jeito de andar, de arrumar o cabelo, de se portar, de abordar a nossa mesa, provavelmente algo assim. Aliás, antes que eu esqueça e receba indevidamente a fama de “babaca que não respeita os mortos”, faço questão de deixar claro que nada tenho, nem nunca tive nada contra o Michael Jackson. Nem quando surgiram ao longo dos anos acusações de pedofilia contra ele. Acompanhei pela mídia os acordos extrajudiciais, e julgamentos e tudo o mais, mas prefiro não me posicionar sobre o assunto. Sobre o que eu não sei, eu não falo, ou faço o máximo de esforço para falar pouco, pelo menos. O que sei com certeza é que num primeiro momento não simpatizei com a garota, e sobre isso tenho autoridade para discorrer.
Certamente que os primeiros encontros podem ser desagradáveis. Eu não me iludo com a idéia de que todos simpatizam, ou que tenham obrigação de simpatizar comigo em primeiros encontros.  Nem em segundos, ou terceiros, claro. Por que teriam, afinal? (…)

Texto de em 11 de julho de 2009. Nenhum comentário.

postado por Lela.

 Volte dois dias e haverá pouca novidade. A memória
perde a linha de uma história sem valor, os fatos passam com
aparente relevância.
Quem conta pensa que sabe e quem ouve diz que acredita.
Conserva-se tudo o que se crê conhecer. Mas o salto no desconhecido
ainda é necessario e gera gargalhadas de desprezo, provoca
perplexidade naqueles que tem medo de arriscar.
 A novidade reduz-se à expectativa da atitude do personagem da vez,
observado sozinho, com apenas um cartão de crédito limitado e sem wireless universal,
pensando em como aportar em uma cidade ilhada e distante da terra natal. Para ele, a cidade parece
 escura, fede a mofo apesar da seca de meses e após dois dias a lembrança será eliminada de sua memória. 
Com o passar do tempo, buscando reconstituir o que passou e na tentativa de conferir relevância
ao comum, tudo será descrito como um grande evento, narrado com entusiasmo e figuras de
linguagem.
A angústia vivida soará como um mérito e o desejo subconsciente de admiração buscará a dor
dos que ouvem como se isso lhe trouxesse de volta o passado mal aproveitado que um dia foi
a novidade de alguém.

Bom dia.

Texto de em 10 de julho de 2009. 1 comentário.

postado por Marília.

Rafaela evitava ao máximo olhar as horas. Se ela soubesse que o tempo restante para o relógio despertar era pouco, psicologicamente já sentia os efeitos da noite mal dormida. Mesmo com a claridade que denunciava através da cortina, evitava saber. Maldita cortina. Há um ano Rafaela pensou em comprar um blackout e agora tentava dormir pensando em comprar um blackout. Começou a chover. E começou a chover tão forte que Rafaela sentiu seus pés úmidos. Maldita poça d’água. Correu pela calçada irregular em desespero. A cada poça a profundidade era maior. Até que Rafaela mergulhou com os braços esticados e escutou uma música abafada que gradativamente ficava mais nítida. 7:00.

Pessimismo sincero…

Texto de em 10 de julho de 2009. 1 comentário.

postado por Saul.

Enfim chegou. Tudo que você deseja fazer será feito. Cruzar linhas antes proibidas. Fazer as coisas por prazer e não por obrigação. Deixar o desinteressante e apreciar só o interessante. Nada importa além da sua felicidade. Aquilo que era condenado por todos não será mais. Sua privacidade respeitada.

Logo depois isso já não vale mais nada. Você não vai fazer tudo como sempre quis. As linhas provavelmente vão aumentar. Precisará, cada vez mais, fazer coisas desinteressantes. Sua felicidade será quase uma utopia. Condenado por seus gostos, palavras e atitudes. Privacidade será algo raro. O egoísmo é uma característica do ser.

Bem vindo à vida adulta. Aqui, como antes, você viverá conforme a sociedade quer. Poucos conseguem se livrar disso tudo. Sonho de criança, de que a vida adulta seria mais simples, se torna mentira, não mentira, mas sim a pura verdade, da qual foi poupado por anos.

Agora só resta o mesmo pessimismo para aguardar a terceira idade, ou acreditar no sonho de que você terá uma vida tranqüila Só o tempo dirá. Claro que tudo isso é algo difícil de concretizar, como todo sonho. Lá atrás parecia ser muito simples de se realizar…

intropostado por Rafaé.

Em época de Internet e gripes animais, quem tem Twitter é hype. Michael Jackson (que o ‘Deus do pop’ o tenha) morreu pra dar um up na carreira decadente; Ivo Mamona inundou Santa Catarina pra homenagear depois; Mallu Magalhães desvirginou um camelo pra tentar transformar Tchubaruba em trilogia; Tio Sam, eternizando Monteiro Lobato como profeta, elegeu um Presidente Negro (pasmem!); e eu, ainda não criei um problema que mereça uma solução.  Sem o Youtube, você dificilmente saberia de tudo isso.

É; o mundo realmente anda cada vez mais virtualizado (palavra nova). Sem Orkut você nem sonharia em ter mil amigos por versão da sua personalidade. Os psicólogos já não têm tantos clientes, pois a solidão não existe mais. Há amigos no Msn, Facebook, Caralhoaquatro, Second Life… Tudo isso ao alcance das mãos – a não ser que seu teclado seja sem fio.

Por isso, minha campanha é pela esterilização da humanidade. Qualquer virose virtual é combatida por algum antivírus medíocre. Esqueçamos as banalidades físicas e passageiras. Vamos viver virtualmente, com backups cotidianos. Em caso de falência múltipla dos hardwares, basta comprar novos no Mercado Livre. A nova era chegou. Tudo o que precisamos é de constante atualização, para não esquentarmos a cabeça com upgrades traumatizantes. Essa fusão do orgânico com o eletrônico ainda vai dar o que falar…